Sexta-feira, Maio 25, 2007

NO SILÊNCIO DO MAR
Por Henry Galsky

A intensidade do silêncio quase explodiu o tímpano de parte das pessoas que ali estavam. O corpo de Renato estava no chão à espera de tratamento ou misericórdia. Não ficava claro. Luise olhava para o céu na esperança que alguma das milhares de gotas de chuva lhe pudesse apresentar algum tipo de resposta, orientação, sentido. Mas nada disso aconteceu. A chuva continuou a cair, as ondas a quebrar com violência no píer e o vento a rasgar os corações culpados daqueles que, poucos minutos antes, eram a própria definição de alegria e desprendimento.

Mas tudo na vida parece ser um tanto irônico. Renato lutara para buscar algo que não conseguia explicar em palavras. E justamente quando testemunhara a alegria sem sentido daqueles que o haviam posto numa liderança forçada, reagira com firmeza, sem escolher as palavras corretas. Era talvez o dilema de sua vida. Um grito quando deveria fazer silêncio. O silêncio quando deveria deixar claro o que queria dizer. Naquele episódio não foi diferente. Diferente possivelmente seria o desfecho de mais aquele equívoco.

- Renato, responde pra mim. Me fala alguma coisa óbvia, me diz o que eu tenho que fazer pra te curar.

- O Brasil, Luise... - Renato respondeu com a voz rouca.

- O Brasil o que? O que você quer me dizer?

- O Brasil é é uma república federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus - citou Oswald de Andrade

Fechou os olhos e desfaleceu. Luise irrompeu em lágrimas, numa cena óbvia para finalizar a vida de um mártir.

Um dos manifestantes, seguidores, admiradores, ex-admiradores de Renato Viana deu um passo adiante.

- Olha, eu lamento muito. Mas temos de tomar uma providência. Se ele está morto, precisamos eleger um novo líder.

- Morto, como assim morto? Você não sabe o que está falando - contestou Luise.

- Mas eu sei. Eu era médico antes de tudo isso acontecer. Deixe eu examiná-lo - um senhor de cabelos grisalhos surgiu no meio daquela gente estupefata.

O ex-médico fez jus ao juramento de um tempo muito antigo na sua vida. Curvou-se e pegou o punho esquerdo de Renato. Respirações suspensas e um decreto final, como um juiz que se inspira para ler uma sentença.

- Não há mais nada o que fazer. E não podemos enterrá-lo - o médico era praticidade pura. E emendou a sugestão: - Vamos jogá-lo ao mar.

Rapidamente, uma multidão de operários competentes pareceu ter se esquecido da liderança de Renato, horas antes. Três moças e dois rapazes de uma obediência solene levantaram o corpo nos ombros, sem qualquer dificuldade. Luise nada podia fazer a não ser derramar mais lágrimas, que se misturariam à chuva, que rolaria por seu rosto até transformar-se em gota espessa, que cairia no chão, juntaria-se às poças d'água e chegaria ao mar. E nada disso faria diferença alguma.

Mas naquele momento - mesmo que somente por um instante - parte de Luise e Renato teriam o mesmo destino. A emoção dela e o corpo dele estariam juntos novamente em alguma parte do mar, agora inundado de expectativas e - gota d'agua - do corpo de um sem-esperança.

E Luise nunca mais esqueceu o som do corpo de Renato Viana se chocando contra as ondas.


Quarta-feira, Abril 11, 2007

PESSACH
Por Henry Galsky

- Eis a minha proposta, companheiros: vamos levá-los a julgamento perto do mar - Renato sobre o Herby estacionado.

Luise era um rosto triste entre a multidão. Chamou-a com um gesto. Ela entendeu. Subiu no fusca. Era a primeira-dama da revolta. O povo em êxtase com a perspectiva de descontar nos médicos toda a raiva do último mês. Uma raiva que caía como chuva.

- Vamos ser razoáveis, pessoal. Esses idiotas são culpados, mas não devemos crucificá-los por todo o mal que temos passado - disse Luise.

Renato lavou as mãos com água da chuva. O rosto também.

- Muito bem. Luise está certa. Mas devemos fazer alguma coisa com eles, companheiros!

Num só pulo, desceu do fusca. Puxou Luise pela mão. Foi à frente. O povo acompanhou o casal, sem sequer saber quais eram os planos.

- Você tem algum plano, Renato?
- Como assim? Você some com aquele idi... seu namorado e agora me aparece assim, sem qualquer explicação?
- Esta chuva é uma praga. Você ainda não entendeu? É uma das dez pragas.
- Do que você está falando?
- Você não percebe?
- O que eu sei é que tenho um povo inteiro que me elegeu um líder sem que eu fosse consultado sobre isso. O que eu posso fazer?
- Caminhar quarenta anos com eles por todo o litoral de Búzios?
- Até que não é uma má idéia.
- Eu detesto este seu senso de humor inconveniente.
- Vamos para o píer.
- O quê?

O povo seguiu-os com um respeito distanciado. Se fosse gago, seria Moisés. Mas não era. Gago. A chuva aumentara. Ninguém arredava pé. Até porque não havia para onde ir. Todos já estavam imunes à pneumonia. A madeira velha e podre do píer rangeu por causa das centenas de pés. Subiu num apoio para ver a multidão. O mar batendo forte e verde-escuro contra a construção.

- Companheiros. Chegou o momento que todos nós tanto aguardávamos. Como se vê, não há saída.
- Pelo menos não a princípio - ironizou Luise.
- Somente nós, o céu negro, e o mar verde. Não há saída. E eu aqui neste Monte Sinai. Por isso, proponho. Que os médicos sejam julgados agora. Mas que não haja mortes.
- "Vai e toma teu único filho em sacrifício" - alguém gritou.
- Este é um outro capítulo, idiota - um rapaz respondeu. Ânimos à flor da pele.
- Queremos sangue! - a multidão vibrou.
- Não! - respondeu Renato. Vocês não entendem o siginficado disso tudo?

O povo riu e começou a dançar ao redor dos médicos amarrados. A multidão cega pelo desejo de vingança. Luise estava apreensiva, não sabia o que fazer. Ela também havia entendido o significado daquele momento. A música não parava e Renato aflito com toda aquela festa. No auge da ansiedade, Renato emitiu o mais alto dos gritos de todos os tempos.

- Chegaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!

Um raio riscou o céu e atingiu-o em cheio. O povo calou-se, num susto sem paralelo nos últimos 3.400 anos.


Segunda-feira, Março 19, 2007

CAROS LEITORES,
POR ABSOLUTA FALTA DE TEMPO, NÃO TENHO POSTADO TEXTOS NOS ÚLTIMOS DOIS MESES. ENTRETANTO, EM BREVE VOLTAREI A PUBLICÁ-LOS COM A FREQÜÊNCIA HABITUAL.
MUITO OBRIGADO.
HENRY GALSKY