NO SILÊNCIO DO MAR
Por Henry Galsky
A intensidade do silêncio quase explodiu o tímpano de parte das pessoas que ali estavam. O corpo de Renato estava no chão à espera de tratamento ou misericórdia. Não ficava claro. Luise olhava para o céu na esperança que alguma das milhares de gotas de chuva lhe pudesse apresentar algum tipo de resposta, orientação, sentido. Mas nada disso aconteceu. A chuva continuou a cair, as ondas a quebrar com violência no píer e o vento a rasgar os corações culpados daqueles que, poucos minutos antes, eram a própria definição de alegria e desprendimento.
Mas tudo na vida parece ser um tanto irônico. Renato lutara para buscar algo que não conseguia explicar em palavras. E justamente quando testemunhara a alegria sem sentido daqueles que o haviam posto numa liderança forçada, reagira com firmeza, sem escolher as palavras corretas. Era talvez o dilema de sua vida. Um grito quando deveria fazer silêncio. O silêncio quando deveria deixar claro o que queria dizer. Naquele episódio não foi diferente. Diferente possivelmente seria o desfecho de mais aquele equívoco.
- Renato, responde pra mim. Me fala alguma coisa óbvia, me diz o que eu tenho que fazer pra te curar.
- O Brasil, Luise... - Renato respondeu com a voz rouca.
- O Brasil o que? O que você quer me dizer?
- O Brasil é é uma república federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus - citou Oswald de Andrade
Fechou os olhos e desfaleceu. Luise irrompeu em lágrimas, numa cena óbvia para finalizar a vida de um mártir.
Um dos manifestantes, seguidores, admiradores, ex-admiradores de Renato Viana deu um passo adiante.
- Olha, eu lamento muito. Mas temos de tomar uma providência. Se ele está morto, precisamos eleger um novo líder.
- Morto, como assim morto? Você não sabe o que está falando - contestou Luise.
- Mas eu sei. Eu era médico antes de tudo isso acontecer. Deixe eu examiná-lo - um senhor de cabelos grisalhos surgiu no meio daquela gente estupefata.
O ex-médico fez jus ao juramento de um tempo muito antigo na sua vida. Curvou-se e pegou o punho esquerdo de Renato. Respirações suspensas e um decreto final, como um juiz que se inspira para ler uma sentença.
- Não há mais nada o que fazer. E não podemos enterrá-lo - o médico era praticidade pura. E emendou a sugestão: - Vamos jogá-lo ao mar.
Rapidamente, uma multidão de operários competentes pareceu ter se esquecido da liderança de Renato, horas antes. Três moças e dois rapazes de uma obediência solene levantaram o corpo nos ombros, sem qualquer dificuldade. Luise nada podia fazer a não ser derramar mais lágrimas, que se misturariam à chuva, que rolaria por seu rosto até transformar-se em gota espessa, que cairia no chão, juntaria-se às poças d'água e chegaria ao mar. E nada disso faria diferença alguma.
Mas naquele momento - mesmo que somente por um instante - parte de Luise e Renato teriam o mesmo destino. A emoção dela e o corpo dele estariam juntos novamente em alguma parte do mar, agora inundado de expectativas e - gota d'agua - do corpo de um sem-esperança.
E Luise nunca mais esqueceu o som do corpo de Renato Viana se chocando contra as ondas.
